uma pessoa de muitas caras

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essa tal de princesa da genovia

essa tal de princesa da genovia

Sobre MARINE

Se ela está pensando que eu vou ficar aqui fazendo papel de idiota a noite inteira, ela está muito enganada. Daqui a quinze minutos eu vou embora. Estou contando no relógio e não tem mais volta.

Ela rodopia pelo cômodo como se estivesse sozinha. De repente, na cabeça dela, ela esteja. Mas tem um monte de gente em volta. E como eles olham… Eu também. Só por mais catorze minutos. Minha cerveja ainda está pela metade, não dá para ir embora assim.

O tênis dela desamarrou. Os dois. Eu é que não vou lá avisar. É que minha cerveja ainda está pela metade e começando a esquentar. Tem gente que não gosta que avisem que o cadarço está desamarrado porque eles não têm nenhuma intenção de amarrar e você não tem o mínimo direito de se meter na vida deles. Ninguém tem o mínimo direito de se meter na vida dela. Por isso que ela rodopia e pára e muda de ritmo e começa tudo de novo… Uma hora ela vai cair. Mas eu não vou avisar, já estou de saída, fiquei até de pé. Talvez eu fume um cigarro antes de ir.

 Malditas varandas com portas de vidro que fazem do cômodo lá dentro uma espécie de televisão em tamanho real. Ainda posso vê-la dançando de modo inconstante, cercada por olhares constantes. Ela não parece ser do tipo que se importa com olhares, mas se você olhar com calma… A calma é uma coisa que ficou para trás na vida sempre atrasada de hoje. Não que eu esteja aqui para ficar falando verdades, na verdade, eu nem sei o que eu ainda estou fazendo aqui. Mas é que eu costumava ser um cara calmo que, na pressa, esqueceu a cerveja pela metade lá dentro.

(Que belezinha!, disse um. Pena que é louca, disse outro. O que você quer dizer com louca? Sei lá, estranha. Todo mundo nesse lugar faz questão de parecer estranho, olha aquela com franja cortada em V. Parecer é diferente de ser, ela é. O que, louca? É! De pedra, deve até tomar remédio. Auto lá, eu também tomo, inclusive, adoro. Você não toma? Não adora? Qual é seu problema?! Tenho certeza que posso te indicar um remedinho incrível se você me contar qual é).

As pessoas falam cada coisa… Pior sou eu que escuto.

Acontece que eu gosto muito de palavras, por isso mesmo sou de tão poucas. O ruim é que às vezes, quando eu preciso delas, elas costumam não sair direito, por falta de prática. Que droga. Se eu estivesse bebendo uísque não teria problema se ele ficasse quente, ao contrário do caso da cerveja no qual eu vou ter que pegar outra. Posso muito bem ir bebendo pelo caminho. Meus minutos se esgotaram. Já é tarde.

Ao longo da minha rota de fuga, pessoas se colidem. Pra mim, pistas de dança são bastante semelhantes a asteróides no espaço sideral, penso assim porque não sei dançar. Contudo, ninguém esbarra nela. Tem algo no seu campo de força que mantém todo mundo afastado. Mas ela esbarrou em mim. E eu pedi desculpa. Não tem cabimento.

- Desculpo.

É aquela coisa no seu campo de força que me faz dar um passo para trás deixando um cadarço do seu tênis livre e aprisionando outro. Ela não diz nada, só acompanha com um sorriso. Ela faz questão de sorrir tanto quanto possível, alguns podem confundir isso com bom humor, mas eu desconfio que seja outra coisa. Uma coisa que tenha a ver com os olhares que ela recebe e só roleta-russamente retribui, sem perder tempo em deixá-los pra trás. Essa pode ser minha contagem regressiva, então eu acabo avisando o que meus princípios me proibiam de fazer. Até porque meus princípios nunca me ajudaram em nenhum fim.

- Eu sei. Eles desamarram toda hora. Quando eu aprendi a amarrar, eu não aprendi a amarrar bem. E no que adianta se empenhar em algo fadado a se desfazer?! Só vale a pena quando acontece algo que faz valer à pena.

Ela se abaixou. Eu também. Mesmo que não tivesse cabimento. Ela sorriu, pois o que mais se poderia fazer quando tem um cara amarrando seu tênis direito? Sorrir e amarrar o esquerdo. E mesmo que todo mundo esteja olhando, ela nem percebe, e eu estou muito ocupado. Porque todos os idiotas que olham só estão esperando alguma coisa acontecer, com a maior paciência, para poder sair dali com uma história pra contar. Eu também contava histórias que acontecia com os outros antes de vir parar nesse lugar, logo eu que sou to tipo que me incomodo com olhares.

E todos os idiotas em coreografia com seus olhares de relance querem saber o que vai acontecer quando a gente se levantar, mas uma coisa é unânime: é melhor estar em volta do que no olho de certos furacões. 

cool quer dizer legal em inglês

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call off the search for your soul

call off the search for your soul

BI-BI

E falam que nossa realidade está mais rápida que nunca… Eu nunca demorei tanto pra chegar naquele mesmo lugar. Está tudo parado. Não mudou o caminho, não mudou o transporte, o que mudou, talvez, foram as pessoas. As quantidades, as prioridades, as necessidades de responder para alguém que está do outro lado do mundo que ela está presa num engarrafamento horrível.
Houve uma batida entre um carro e um ônibus, foi isso que aconteceu, o de sempre. A mulher que era a motorista do carro ainda tem o celular na mão, mesmo que tenha sido por conta do celular que ela se distraiu do trânsito e bateu no ônibus que vinha logo atrás. Agora ela está nervosa e precisa falar com alguém que a acalme. Ela não é a única nervosa, nem muito menos a única que está com o celular na mão. Pego o meu retângulo de luz e checo há quantas horas estou nessa viagem que, para começo de conversa, nem sabia que ia ser uma, já vão fazer três.
Todos parecem nervosos. Não posso garantir que todos estejam nervosos por causa da batida, acho que é mais pelo efeito que a batida causou, o trânsito terrível, atrapalhando os planos de todo mundo que se viu encurralado nessa viagem que não tem previsão de acabar, as baterias estão acabando, acredito que assim como eu todos querem chegar em casa.
O meu passatempo nessa viagem não depende de nenhum vendedor ambulante, me contento em encenar na minha cabeça o que cada uma dessas pessoas vai fazer quando chegarem aos seus locais de destino. Será que vão direto para o banho ou ligam o computador primeiro? Antes de mais nada, é preciso colocar os retângulos de luz para carregar, isso sim foi algo que a modernidade trabalhou para encurtar o tempo, isso e a curiosidade par saber como foi que ficaram as fotos.
Mas de volta às pessoas, fico imaginando se elas ainda contam o relatório de como foi o dia para suas pessoas preferidas mesmo quando já mandaram mensagens sobre os acontecimentos ao longo do dia. Se contam, não tem a mesma graça. Pode ser que não contem, pode ser que passem esse tempo online contando para outras pessoas queridas que agora ela está jantando com suas pessoas preferidas no mundo. É importante que o resto do mundo fique informado. Vivemos na era da informação.
BI-BI, o ônibus buzina quando faz uma manobra brusca para trafegar na pista reversa. Não sei quantas leis o motorista está quebrando para se por em movimento nesse trânsito. Sei que fico agradecido. Daqui há três paradas é a minha hora de descer, mas eu não preciso deixar ninguém avisado. Não demora nem cinco minutos para eu ligar o computador e escrever o que eu pensei no ônibus. Quero que todos saibam. 

bigcitydream

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so busy building castles in the sky

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